domingo, 30 de março de 2014

SOBRE OUVIR... PARTINDO DE HEMINGWAY




SOBRE OUVIR... E DE COMO ME IDENTIFICO NESTE ASPECTO COM HEMINGWAY, quem dizia: "Gosto de ouvir. Aprendi muito ouvindo cuidadosamente. A maioria das pessoas nunca ouve."

A tendência é, sem dúvida, ouvir-se, falando... procurando ecos e aprovações nos olhares e nos ouvidos alheios... navegando num sem numero de diálogos de surdos.

Ouvir é aprender a dar, a estar realmente disponível... uma energia que podemos e devemos desenvolver, pois existe sem dúvida dentro de cada um de nós.

Ouvir e estar na / em relação... disponível para um outro pensar e sentir... sem receio de ficar "para trás", sem receio de colocar interesses pessoais em stand by.

Ouvir e dar espaço a um outro... é criar oportunidade de expansão pessoal... é sair da zona de conforto... é fomentar um espaço interior de dúvida optativa.

Porque, no fim de contas, Ouvir é também abrir a hipótese a encontrar ecos e ressonâncias... ou não... e, neste último caso, conseguir sustentar, de forma enraizada, o sentimento egóico da frustração.

lúcia*


quinta-feira, 27 de março de 2014

EMOÇÃO DOLOROSA COMO FAROL




o que fazer das emoções dolorosas, senão perceber e compreender que podem ser o farol que nos guia para as partes da personalidade que viemos sanar e transformar, ao entrarmos no corpo físico para a experiência terrena que nos tocou vivenciar...

lúcia*

Imagem: "A Midsummer Night's Dream" by Christian Schloe

terça-feira, 25 de março de 2014

CEMITÉRIOS EMOCIONAIS... OU A DOR DO APEGO SOLITÁRIO




olhava desalentada e impotente (como se lhes quisesse dar vida) as caixas de cartão forradas por si mesma a tecido...

caixas a abarrotar de cartas manuscritas, em letras e datas diversas, e de fotografias amareladas (umas a preto e branco e outras a cores)...

florzinhas secas com significados vários, laços de seda desfeitos, a Cartilha Maternal (cheia dos primeiros garatujos), um brinquedo de lata de seu irmão, falecido em criança com a pneumónica, e que ela, como mais velha, ajudara a criar...

uma medalha de aluna do coro da igreja da aldeia nortenha onde nascera e de onde partira, ainda gaiata, com seus pais, para a capital... o relógio de bolso de seu pai, que há muito deixara de marcar o tempo... o frasco de perfume vazio de sua mãe, que mantinha um leve odor a "Madeiras do Oriente"...

uma caixinha de música muda, com uma bailarina em pontas que, outrora, rodara em infinitos "fouettés en tournant"... e as suas próprias sapatilhas de cetim rosa já coçado, dos tempos no conservatório...

o tule do véu de noiva, trazia recordações de um tempo a dois de confidências, confiança e infinito carinho...




releu e acarinhou tudo pela centésima vez, enquanto lágrimas penosas lhe assomavam aos olhos e escorriam pelos socalcos do rosto, finalmente libertas, aterrando docemente nas mãos alvas e já esquálidas...

mensalmente, como num ritual perene, alentava-a esta viagem pelo cordão umbilical que a ligava, mas que também a aprisionava, ao passado saudoso... a tudo e a todos os que já tinha partido, deixando-a só... apenas consigo mesma e as suas caixas de cartão forradas, já que a memória teimava em trai-la aqui e ali...

levantou-se a custo do chão... regressando ao sofá da sala, frente à televisão, que muitas vezes nem sequer ouvia, onde se sentava diariamente em infinitas tardes... à espera.

lúcia*


segunda-feira, 24 de março de 2014

SOBRE A OBSERVAÇÃO





observe imparcialmente o que acontece à sua volta...

observe-se a si mesmo... e observe-se observando-se...

observe não a parte, mas o todo: há sempre alguma coisa a acontecer, exterior e interiormente...

observe, porque observar é o verbo mais holístico de todos...

e faça-o, não apenas com o cérebro, mas também com o coração.

lúcia*

domingo, 23 de março de 2014

SER AMOROSO




Ser Amoroso é...

entregar-se  na gentil suavidade do gesto

saborear a brisa do carinho

navegar na delicadeza das palavras

mergulhar na água cristalina do olhar

ter liberdade para amar centrifugamente

ser fiel ao seu sentir

escutar e observar o objecto amoroso, tal qual é

dar e unir

elevar-se acima de eros e ágape

tudo isto... e tanto mais


lúcia*

Foto: Juliette Binoche como Camille Claudel (no filme "Camille Claudel 1915")


quinta-feira, 20 de março de 2014

O EGO... AO ENCONTRO DA ALMA





Que fabuloso ensinamento este de Nisargadatta: "Não é o que você faz, mas o que você pára de fazer que importa".


porque o importante:

é a auto-observação diária, atenta e plena de compaixão,

a máscara que retiramos, porque obsoleta e despropositada,

a mente de principiante,

a compreensão e a consciência que nos permitimos a cada dia,

o automatismo que desactivamos,

a sombra que iluminamos,

a coragem de Ser em essência,

é o que deixamos de ser, porque isso não somos!

lúcia*

Imagem: "Woman leaving the psychoanalyst" (Remedios Varo)

terça-feira, 18 de março de 2014

CAMINHAR AS SOMBRAS DA VIDA



às vezes sentia a Vida como um túnel que deveria atravessar... pejado de sombras... a escuridão da Iniciação.

e apetecia-lhe mergulhar nessas profundezas... mas o medo tolhia-lhe os movimentos... paralisando-a à entrada do Caminho.

em pânico, percebia que só se conseguia Mover se voltasse para trás.

um Dia, respirou fundo... fixou o olhar no Negrume, com ar Desafiante e, desta vez, foi em Frente!

lúcia*

"O IMPÉRIO DA LUZ - Uma reflexão pessoal sobre a Luz e a Sombra na Alma Humana" (extractos)



"(...) Mudarmo-nos... e o que é que é suposto mudarmos em nós?

Sinto cada vez mais que se trata de enfrentar e diminuir a nossa sombra e aumentar a nossa luz pessoal... duas faces da mesma moeda, dois processos complementares, mas sem dúvida cada um deles com "vida própria" e percurso particular...

(...) Mesmo quando caminhamos em direcção à Luz, a Sombra mantém-se atrás de nós, relembrando-nos a nossa dualidade terrena.

Cabe-nos decidir deixar que a Sombra nos persiga... ou nos conduza!"

lúcia*

alegoriadacaverna2@gmail.com

domingo, 16 de março de 2014

ASAS DE ANJOS




perdia-se muitas vezes olhando as estrelas no céu da noite... imaginando outras vidas, outros sentires, outras paisagens, outros caminhos

por vezes, entre si e as estrelas, passavam nuvens de matizes acinzentados... algumas eram claras asas de anjos... 

e passavam lentamente, deixando um rasto de doçura cálida no ar, a quem soubesse ver!

lúcia*

quinta-feira, 13 de março de 2014

METAMORFOSES... DO PESO DA DEPRESSÃO... À NOSTALGIA ELABORATIVA...



vinha a espaços, de modo insidioso e, talvez, um pouco sedutoramente...

apanhava-a sempre desprevenida, no meio de um estar despreocupado e leve, por vezes até eufórico...

qual nevoeiro espesso, esse sentimento envolvia-a numa espiral de paralisia gradual

o corpo e a mente... a própria alma... sem vento, sem ar, sem terra, sem o fogo da vida, sem leme ou norte...

encapsulada num tempo suspenso, como um casulo perene e sufocante...

sem vontade própria ou desejo, as células vibravam numa frequência baixíssima, porém, num recanto das mesmas, a matéria da vida parecia transmutar-se num ritmo imposto por algo maior...

um sol matinal tímido, encimado por um fino raio vermelho alaranjado, acabava finalmente por nascer e o corpo parecia começar a mover-se na cama...

primeiro um pé, a medo, depois outro... agarrada à mesinha de cabeceira, segurava a mesma com força, tentando equilibrar-se... respirando profunda e pausadamente o alento da vida...

e, lentamente, tal como o nascer do sol, o brilho da alma voltava aos seus olhos... lavados por cálidas lágrimas que escorriam pela pele alva...

no espelho, via reflectido um novo rosto, apesar dos traços de sempre...

e na linha dos lábios cerrados adivinhava-se já um ténue sorriso...

lúcia*

Imagem: Ritrato di Benedetta Marinetti de Giacomo Balla (1951)






sábado, 8 de março de 2014

MERGULHOS NO ETERNO E FÉRTIL SILÊNCIO



é no imenso silêncio fecundo que levamos dentro que se encontram todas as respostas e  todas as leis do universo que nos rege e que também somos...

por isso, a procura dessa luz eterna é também interior... uma viagem em silêncio atento e presente, nesse eterno espaço sem tempo...

uma viagem à essência que somos, mas que se esconde debaixo das capas e máscaras adaptativas à vida na dualidade terrena...

que fantástico desafio... regressar, mas agora em consciência, à Casa de onde nunca saímos

lúcia*





quinta-feira, 6 de março de 2014

SABERMOS-NOS LER



"Eu Mesmo" - esse deveria ser o nosso livro preferido... o primeiro livro a aprender a ler e a sublinhar... o primeiro livro a tirar da prateleira... o fiel companheiro da mesinha de cabeceira...

"Saber-Me Ler" - deveria ser a primeira escolarização emocional... intra e interpessoal... a base da independência e genuinidade pessoais (narcisismos à parte, claro!)... fazê-lo com toda a Atenção e Tempo, sem julgamentos ou distorções, sem necessidade de respostas rápidas procuradas no exterior (fora de mim), deveria ser uma obrigatoriedade...

No fundo, o "EU" - constitui a história da humanidade!

Poderei EU estar livremente consciente do conteúdo deste livro que conta esta história que SOU?

lúcia*




domingo, 2 de março de 2014

DA NUDEZ DA ALMA



despira-se de máscaras...

agora não lhe restava mais do que a nudez da Alma... essa essência pura que poucas ousavam desvelar...

chegara a recear sentir-se frágil e vulnerável, porém... todo o contrário... dentro de si pulsava o inconsciente colectivo da árvore genealógica da matriz feminina... uma ténue sensação visceral que lhe dava estrutura interior e excitava um poder suave e doce...

por tudo isso, colocou o pé na calçada húmida pelo orvalho matinal que a noite fresca parira...

e, à sua passagem, deslizante mas segura, a natureza pasmava.


lúcia*




POTENCIAL ESCONDIDO




um dia, quando menos se espera, surge do fundo de nós um potencial desconhecido e arrebatador... até aí apenas intuído, escondido porque o medo o recalcou ou porque não era a sua hora...

desvelado, surge pleno de saber e de energia de criação... e todo o Ser se expande... e a missão da Alma pode, finalmente, começar a cumprir-se...

lúcia*

alegoriadacaverna2@gmail.com