vinha a espaços, de modo insidioso e, talvez, um pouco sedutoramente...
apanhava-a sempre desprevenida, no meio de um estar despreocupado e leve, por vezes até eufórico...
qual nevoeiro espesso, esse sentimento envolvia-a numa espiral de paralisia gradual
o corpo e a mente... a própria alma... sem vento, sem ar, sem terra, sem o fogo da vida, sem leme ou norte...
encapsulada num tempo suspenso, como um casulo perene e sufocante...
sem vontade própria ou desejo, as células vibravam numa frequência baixíssima, porém, num recanto das mesmas, a matéria da vida parecia transmutar-se num ritmo imposto por algo maior...
um sol matinal tímido, encimado por um fino raio vermelho alaranjado, acabava finalmente por nascer e o corpo parecia começar a mover-se na cama...
primeiro um pé, a medo, depois outro... agarrada à mesinha de cabeceira, segurava a mesma com força, tentando equilibrar-se... respirando profunda e pausadamente o alento da vida...
e, lentamente, tal como o nascer do sol, o brilho da alma voltava aos seus olhos... lavados por cálidas lágrimas que escorriam pela pele alva...
no espelho, via reflectido um novo rosto, apesar dos traços de sempre...
e na linha dos lábios cerrados adivinhava-se já um ténue sorriso...
lúcia*
Imagem: Ritrato di Benedetta Marinetti de Giacomo Balla (1951)

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